Quando abriu os olhos, indeciso sobre a precisão do ato,
sentiu um cheiro ocre
pela borda inferior do ouvido.
Mais precisamente o direito,
que corria livre da preensão entre
o crânio e o chão.
Foi desavisada deste modo
que a córnea esquerda
-deitada no canto amassado do rosto-
aos solavancos da pálpebra,
deu-se por vencida mantendo-se aberta.
Não era essa a ideia
tudo lhe parecia fora do lugar
uma sombra no canto da sala
reconhecida apenas ao estender dos braços
confuso permaneceu sem saber
se o gesto era uma tentativa de abraço.
Só mais tarde saberia quem era
o dono dos carentes membros inferiores.
Repassou o plano através de outras centenas de vezes
tudo seguido em rígido método,
simples inclusive. Não se mover era a regra
o espaço de queda seria pequeno
pois estava sentado no chão
o que também auxiliaria
utilizar os braços até o momento do baque.
— Calma
seriam horas sem nada.
Apenas o espaço entre as mãos
o prato, um cartão e o canudo.
Este, feito de plástico
pois não haveria de ser o enrolar de uma nota
a derrocada de tamanha paciência.
Cada vez
cinco linhas
a metade do dedo mínimo
em espessura. Volta-se o prato ao chão.
Esperar cinco minutos
repetir o processo. Seriam pelo menos cinco dias.
Dessa forma
sem sono
sem comer
ela chegaria.
Tudo começa com um sonho.