Os primeiros dias.
Enquanto a bandeira do Irã desfilava na cerimônia de abertura,
pelas arestas descomunais da pirâmide Azteca,
suas terras eram fustigadas por fogo e ódio:
— Permaneciam ressoando cadáveres.
168 meninas em uma escola
entre os desconhecidos números:
— Variando entre 789 e 3000.
Dois dias antes, uma seleção africana foi revistada
de forma violenta.
Parados ao descer do avião:
pernas abertas;
detectores de metal;
testículos tomados a fórceps;
mãos na cabeça.
Da sempre apressadamente óbvia,
defesa da generalização
surgiram vozes a dizer que todos passaram
pelo mesmo processo.
Menos a Inglaterra,
ou algum nórdico. Eles, recebidos como realeza,
apenas sentiram a miséria de uma autocracia
por conta da economia retroalimentado a pobreza:
foram assaltados, levando-se até sua maca.
Sem revista, como revistam os pretos,
todos pretos, que se não revistados,
são deportados. Um juiz somali:
— Omar Abdulakir Artan. Acossado e expulso
(sem cartão)
após depor onze horas. Como todos pretos.
Quando a fonética alada de Lila Downs
atravessou o gramado irmão continental,
de sua voz ressoou um paradoxo:
a Copa de futebol a unir os povos;
menos ao atacante iraquiano Aymen Houssein.
Há uma enorme probabilidade de que
ao fazer o gol que classificou sua seleção ao torneio,
os pensamentos de Aymen transpassaram seu pai;
morto pela al Qaeda,
ou pelo irmão: sequestrado pelo Estado Islâmico,
e jamais encontrado.
Interrogado por sete horas.
As autoridades,
queriam saber qual sua ligação com grupos;
as lembranças certamente retornaram.
O fotógrafo oficial da seleção,
impedido do avanço através da lente:
Talal Salah, detido por dez horas.
No desmonte do tempo
entre os dois suados gols mexicanos,
e a vitória transcrita de um roteiro sul coreano
destruindo as redes tchéquias,
a Inglaterra voltou a sentir o peso social
- da colônia que ajudou apodrecer -
um atirador matou duas pessoas e feriu catorze.
O crime ocorreu próximo ao centro de treinamento.
Nas arquibancadas do dia doze de junho
um boneco titereiro italiano,
ao lado do secretário de estado Marco Rubio.
Este, quer um reino para chamar de seu.
Provavelmente com escravos latinos e sul-americanos,
visto - como todo branco ressentido -
pensar ser um europeu.
Os dois artífices,
cada qual em sua pantomima,
assistiam a seleção local.
O time estadunidense,
sob o sol ensurdecedor de Inglewood,
embebia a seleção paraguaia
em uma guarânia de losna branca;
o primeiro tempo arremeteu o cérebro
diretamente aos sábados
em que víamos os dez passos mais rápidos do planeta:
Os Passos De Tyson,
na direção do rosto oponente.
Tudo muito rápido,
certeiro,
poderosamente violento;
a imposição do inevitável,
Tyson era assim. Inevitável.
A seleção nas cores do próprio Paraguai,
tem como escudo no uniforme uma história:
“O signo de imediata semelhança da camiseta,
remete ao primeiro símbolo nacional do país,
denominado Grande Selo.
Thomas Jefferson ao moldá-lo,
pensou os estadunidenses como
“os filhos de Israel no deserto”. Queria,
de forma pictórica,
“Moisés levantando seu cajado
e abrindo o Mar Vermelho.
O Faraó a morrer pelas águas”.
A cena recriaria a passagem israelita.
Pelo provável espaço,
optou-se por uma versão moderada:
“Águia sem apoios, a carregar armas,
sem nenhum suporte,
pois os Estados Unidos da América
devem confiar apenas em sua própria virtude”.
As palavras de Charles Thomson,
criador do design original no século XIX,
ressoam no desenho do escudo atual.
Outro aspecto a ecoar,
pelas linhas verticais vermelhas,
é a ideologia nascida desses mesmos tempos.
Vale aqui uma vírgula,
para que se possa encontrar o ponto:
No discurso de sua posse,
Donald Trump declarou:
“Vamos perseguir o nosso Destino Manifesto até às estrelas, lançando astronautas americanos para fincar as estrelas e listras [da bandeira da América] no planeta Marte."
O Destino Manifesto é uma ideologia,
que preconiza uma crença:
que o povo estadunidense tem o direito moral e divino,
de expandir seus territórios do Atlântico ao Pacífico.
John O’Sullivan, em 1845,
ao descrever a anexação do Texas
em um artigo nomeado pelo substantivo,
escreve:
"Outras nações lançaram (…) interferências hostis contra nós, com o objetivo declarado de frustrar nossa política e obstruir nosso poder, limitando nossa grandeza e impedindo o cumprimento do nosso destino manifesto de nos espalharmos pelo continente que nos foi concedido pela Providência para o livre desenvolvimento de nossos milhões que se multiplicam anualmente".
Foi assim que Deus concedeu ao povo branco,
do norte da América,
o direito de expandir seus territórios.
Seja qual for a forma.
Essa ideologia é a manjedoura
do escudo da seleção estadunidense.
E naquela tribuna de honra,
em que estavam o boneco Infantino e seu mestre Rubio,
nos tronos de mogno e ar-condicionado,
a estética -como sempre- imprimiu em ferro
nas costas dos defensores paraguaios
uma expansão territorial violenta.
A devastação no primeiro tempo,
tal a intensidade da ação militarizada
em território venezuelano,
que supostamente assassinou Niño Guerrero:
chefe do cartel de drogas “Acme”, Tren de Anágua.
Facção inventada pelo regime de supremacia branca,
para justificar o sequestro de Nicolas Maduro.
Que segue, sem crimes e provas, preso.
Mas eles têm convicções,
como Sérgio Moro.
Outro personagem,
com mais importância que nosso juiz,
deve ser lembrado nesse começo de Copa do Mundo:
Napoleão Bonaparte.
Nova Orleans era controlada pela França
em 1803. Cidade portuária,
estratégica para comercialização.
Produtos franceses, sob o comando
do primeiro ministro supracitado,
eram vendidos aos moradores.
Bonaparte fez mais:
vendeu toda a Louisiana:
que se estendia do Rio Mississipi
até as Montanhas Rochosas,
também do Golfo do México
até a fronteira com o Canadá.
Jefferson comprou a independência territorial.
O que não foi a tônica do país que estreou
vinte e quatro horas depois
da seleção do brasão Manifesto,
contra a Escócia.
No mesmo ano em que Napoleão vendeu a Lousiana,
seria esmagado por um exército de ex-escravizados,
liderados por Jean-Jaques Dessalines.
Em contra ataque Pelé - Tostão - Jairzinho,
nas montanhas de Vertiéres,
Da exatidão Sócrates em petardos Reinaldo,
impôs a derrota vexatória aos franceses.
A supremacia branca do mundo foi esmagada naquela partida.
A independência do Haiti,
como uma lembrança histórica
da formação de um país,
que arrancou dos grilhões a capacidade de bailar
pelos gramados territoriais de forma independente,
sem aparatos,
foi proibida do retrato em sua camisa.
A seleção que celebrava a vitória dos pretos
contra seus algozes brancos;
que ajudou na formação do povo,
foi considerada pela FIFA uma manifestação muito política.
O escudo estadunidense,
que reflete uma estrutura de dominação,
colonização
e extermínio,
foi dado como um orgulho nacional.
Celebrado por Rubio e seu bobo da corte.
Enquanto a seleção do Irã teve seus passaportes retidos,
a do Haiti,
foi impedida de contar a história de seu país
em sua camisa.
Os anfitriões,
pelo contrário,
ostentam com orgulho
o signo de uma doutrina.
Pelo ressoar do tempo,
o apagar haitiano respirou
três flâmulas estendidas:
- os números um, sei e oito -
ao lado de uma bandeira Palestina,
sinalizavam a lembrança de um último tango
das meninas persépolis. Arrancadas em pólvora.
Tempos depois, o arranque de Messi
desvelava ventos malvinos;
levou consigo três marcadores.
Abriu o mar vermelho de sangue,
na terra onde Jefferson prometeu uma mentira.
As almas meninas serviram-lhe a flecha
arrancada da garra fraturada de uma águia morta,
que ao lançar diretamente ao ângulo da meta,
avisou Rubio que a história do continente
é latina sul americana e não supremacista.
Nesta sexta-feira,
o Brasil enfrenta o Haiti,
que é logo ali, também aqui.
Tenso jogo, com uma seleção brasileira
ainda indecisa do que pretende ser.
Entre os dois adversários,
a história de uma intervenção humanitária da ONU.