Oficializei o diário.
Criei outro projeto no editor de textos. Abri uma caixa para depositar pedaços de epiderme que serão deixados pelo caminho. Dentro de uma caixa.
No meio ver da célula na rede de proteção, uma folha se move matutina através da brisa que seca minha córnea.
Escrevo um conto sobre córneas que andam.
Outro conto, outra caixa.
A folha caiu.
Tarde:
Na calçada lateral entre as ruas Apa e Pirineus, manjedoura de sombra miragem que o Elevado finge criar, tipografaram-se pontos e vírgulas hemáceos pelo chão. Secos. Criavam uma linha assimétrica por entre as lajotas em erosão, a faixa de acessibilidade e os quadriláteros canteiros de plantas em coma. Trôpegos em direção à intersecção em tê entre a Avenida São João e a segunda rua.
Corria o desespero em tentar achar uma rota de fuga visto as primeiras gotas, posicionadas na entrada do serviço de proteção à pessoa em situação de risco, ainda ferventes.
O tracejado de sangue interrompeu-se no meio do asfalto um pouco antes de conseguir atravessar a rua, bem no meio da faixa de pedestres. Nos meus fones de ouvido tocava o seguinte verso:
"Existe algo atrás da minha cabeça,
atrás da minha cabeça;
atrás da minha cabeça e na frente também.
Eu tenho apenas meio cérebro pois acabei de pagar pela lobotomia;
diga para eles apagarem as piores lembranças
e também as mais felizes.
Eu não tenho mais o que pensar".
Talvez o corpo tenha finalmente alçado voo, mesmo sangrando.
Comprei leite de amêndoas em promoção, papel higiênico com triplas folhas, óleo, farinha e suco. Tenho terapia e não sei o que dizer.