Alt: Vídeo horizontal em que a palavra SOLIDO e a letra à são dispostos em colunas e linhas, enquanto elipses coloridas são desenhadas no lugar das letras, formando um mosaico vivo que vai formando os versos do poema de Wlademir Dias Pino:
SÓLIDA
SOLIDÃO
SÓ LIDA
SOL SAÍDO
DA LIDA
DO DIA.

Dentro do artigo “Nova Linguagem, Nova Poesia”, escrito por Luís Ângelo Pinto e Décio Pignatari, a definição de linguagem como conjunto de signos relacionados através da sintaxe, referentes e da pragmática era a base teórica. Dentro desse grande sistema um amálgama composto por sinalizações de trânsito (que Philadelpho Menezes trará como piada semiótica em seu poema “Inconfidências”), esquemas, diagramas, linguagem computacional (que logo abaixo terá sua serventia), matemática e simbólica; do mesmo modo, cinema e linguagens audiovisuais.

Objetos projetados nas condições modernas (parafraseando o primeiro preceito de Guy Debord em “A Sociedade do Espetáculo”, que por sua vez “plagiou” a abertura em O Capital de Marx1 ), construídos de acordo com as necessidades e funções que devem cumprir, são parâmetros nas construções de outros objetos de linguagens distintas.

Isso transforma o poeta em projetista da linguagem; algo facilmente mediado pela teoria de Bourdieu sobre a importância em unificar estudos antropológicos e filosóficos aos conceitos da ciência literária. Sua definição de habitus leva em conta as condições sociais em que uma obra é produzida, pensada e concretizada, como fatores de ampliação à experiência literária.

O repertório do autor é peça chave dentro desse processo.

Repertório que por sua vez liga-se a outros sistemas dentro da literatura, o que afirma Even-Zohar ao postular sua Teoria dos Polissitemas, que condicionará o objeto literário através do formalismo russo (nosso queridos) e estruturalismo da escola de Praga, às noções de sincronia e diacronia (a estática e linha do tempo respectivamente), tornando-o um objeto histórico.

O habitus, que inseriu o pensar a obra como trabalho de produtores moldados em contextos sócio políticos culturais, determina uma constante troca entre diversos sistemas literários, como visto atualmente nos preceitos de escrita diaspórica de Josefina Ludmer, utilizados para conceituar sua definição de pós-autônomia. Os enunciadores são plurais em geografia e não possuem especificamente uma terra mãe, pois seus objetos literários expandem essas fronteiras.

Isso posto, a construção de novas linguagens nasceria das necessidades específicas em que novos conjuntos de signos seriam criados (sejam visuais, auditivos, etc), e também seria morada de novas regras sintáticas aplicáveis aos sistemas de signos recém nascidos. Construções em movimento dentro do polissistema literário, interdependentes da variação da sintaxe e da relação com a forma dos novos signos. Essa sintaxe, condicionada ao aspecto sígnico, fornecerá uma nova forma de comunicação.

Caminho este iniciado pelos Concretos, até o esgotamento de todos os recursos e a necessidade de criação de outros códigos. Pelo pouco que sei diante do mundo, penso que o poeta que mais obteve êxito dentro dessa criação seja Wlademir Dias-Pino.

Paranomásias e geometria em seus poemas rompem com o sentido de linha dentro da escritura e expandem o campo volumétrico poético. Se o concretismo destruiu a sintaxe ao desintegrar o verso, Pino propõe a subtituição da palavra por sinais gráficos que exteriorizam de imediato a visualidade do poema. O método ideogrâmico é a origem em que transita a relação orgânica entre elementos do enunciado, entretanto, a criação gráfica produz estatísticas de substituição.

O poema “Sólida” é talvez o exemplo mais evidente dessa nova sintaxe. Sua composição resume toda a poesia semiótica: cada letra (S, O, L, I, D, A, o) é substituída por uma figura geométrica. As elipses se opõem e combinam com os outros signos na formação dos versos:

SÓLIDA
SOLIDÃO
SÓ LIDA
SOL SAÍDO
DA LIDA
DO DIA

Na poesia semiótica, a geometria (figuratividade) substitui uma palavra inteira. A articulação com outros signos não visa a formação de qualquer frase, mas uma colagem de significados representados pelas figuras, mesmo sem sentidos e interpretações claras. Os elementos visuais que combinam as letras, tem como função explicitar, intensificar e concretizar o sentido da palavra.

O poema original, visto o objeto poético ser claramente sincrônico, é de 19562


Duas imagens do poema SOLIDA, com fundo laranja. Na primeira, à esquerda a palavra SOLIDA em preto está posicionada na parte superior, e abaixo dela uma série de círculos amarelos em diferentes linhas preenchem a página. Na primeira linha a letra O aparece dentro do último círculo. Na segunda imagem, à direita, os mesmos círculos estão preenchidos por diferentes letras formando os versos: SÓLIDA SOLIDÃO SÓ LIDA SOL SAÍDO DA LIDA DO DIA.

A primeira imagem deixa claro que o signo visual tem como função a formação da sintaxe. Há um espaço vazio nas elipses, a não ser na imagem que funciona como chave léxica dentro do poema. A intertextualidade tem um papel reduzido, contudo existem prováveis interpretações e significados que podem nascer através do repertório do receptor. Rompe com a ideia do caligrama, em que a forma é determinada pelo signo verbal e seu significado, mas deixa bem clara a função da montagem como mecanismo semiótico do poema.

As figuras seguem um sequenciamento codificado, em que o significado depende da montagem do signo. O tempo aqui exerce uma função fatorial de intertextualidade, ao mesmo tempo que revela o significado, concluindo assim a significação da poesis.

Foi esse tempo de montagem que me levou ao poema “Para Wlademir Dias Pino”.

Uso os mesmos signos verbais (SOLIDAo). A homenagem nasce exatamente do uso semiótico inicial da poética pinádica. As imagens realizam a montagem das palavras, que por sua vez desencadeiam versos, dando-lhes assim significado. Os aspectos que inseri no experimento estão em nuances estudadas dentro do poema anterior, “Cavaloproc”. O signo sonoro controla a formação do verso. A estrutura construída através de arpégios em sintetizadores modulares, amplia a construção da palavra, pois a função que capta a frequência das notas é usada na montagem do signo verbal dentro do poema.

O processo pode ser descrito assim:

a) criar a música através do software VCV Rack;

b) criar o arquivo sonoro dentro do software Processing através da bilioteca Minim;

c) escrever a variável que utiliza a função Perlim Noise e a captação da frequência do signo sonoro (tal como um morfema), que serão usados como gatilhos de criação do signo verbal;

O arpégio atua como um agente de montagem intersígnica dentro do poema. Se aproxima funcionalmente da construção de tensão dentro da linguagem do cinema. Ao mesmo tempo, através da criação de uma ilusão visual derivada da troca dos signos verbais na tela, constrói o significado. Essa construção também aponta para outro processo experimental dentro da escritura, que é a junção de dois signos distintos trabalhando em conjunto na produção de sentidos.

Na verdade são três diferentes signos;
posteriormente explicarei melhor.

As elipses coloridas apresentam a mesma função apresentada por Wlademir Dias dentro de seu poema e já explicada acima. O aspecto de estudo aqui se apresenta também no uso do signo sonoro como elemento de ruptura do signo visual. A frequência sonora criará uma nova interpretação do objeto cor, modificando sua representação. Essa mudança é acompanhada pela ruptura na posição estática do poema de Dias-Pino, o que produz uma ampliação à construção dos significados. Elipses agora formam novas figuratividades em mudanças constantes de representação do objeto cor. Os movimentos permitem novas construções dos signos verbais, adicionando assim uma nova camada de intertextualidade.

O leitor ao interpretar as elipses e suas cores, perceberá que a figuralidade se torna um ponto focal, levando os olhos na direção de sua própria representação do objeto cor, pelas vias do seu repertório. Essa movimentação interpretativa também constrói um montagem signica diferente, forçando o leitor a uma busca pelas possíveis relações enunciador-receptor dentro do poema.

Aqui o experimento poético atravessa suas três camadas signicas que atuam conjuntamente na produção de sentidos: som, verbal e visual. Existem ainda um outra camada que penso ser importante citar como parte da estruturação poética sonora: as frequências utilizadas são o ponto de equilíbrio entre a figuralidade e o escritema do poema. Os termos são retirados das pesquisas realizadas por Wilcon Joia Pereira em seu livro “Escritema e Figuralidade”, de 1976, em que o autor estuda os aspectos linguísticos e como ocorrem as representações plásticas de signos verbais em pinturas.

Para Pereira, “escritema” é a definição dada ao signo verbal quanto seu valor semântico sujeito aos valores plásticos, que desarticulam e reorganizam as dimensões linguísticas através de prolongamentos parciais, subversão de traços distintos em metamorfose com cores, volumes, tramas e contextos. Dessa forma a autonomia do signo verbal está completamente comprometida. Essas novas exteriorizações do signo, construídas pelas formas e figuras, é chamada de “figuralidade”.

É a “figuralidade” que cria os corpos particulares chamados de “escritemas”, que por sua vez são a menor unidade de significado do signo verbal em um contexto artístico.

A manipulação dessas duas definições dentro do poema servem para desestruturar o conceito de “dominante”, descrito por Roman Jakobson, que define o elemento focal de uma obra de arte, pois determina e transforma os outros elementos, dando coesão à estrutura (MENEZES, apud JAKOBSON, 1991, p.113).

A montagem em “Poema Para Wlademir Dias-Pino”, não fornece uma só dominante. A construção do signo verbal é simbiôntica à construção do signo visual. O segundo amplia a “figuralidade” poética ao definir variações de espaço e o primeiro promove uma ruptura com o “escritema” pela variação celular. Desse ponto provém o objetivo do experimento: fazer com que o tempo da montagem signica amplie a intertextualidade da obra. Moldá-lo, para que enquanto avance a semiótica poética -direção da apreensão de significados-, seja elástico na ampliação da interpretação.


Referência Bibliográfica:

MENEZES, Philadelpho. Poética e Visualidade: uma trajetória da poesia brasileira contemporânea. Campinas. Editora da Unicamp. 1991.