Abril 2026

Abril primeiro, dia da mentira, São Paulo, 2026

Parece mentira…

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Talvez a afirmação no diário da manhã

foi um momento de muita paranoia:

realmente alimentada pelo medo.

Nascido e crescido

assim:

meses pensando no intestino podre

para depois ganhar força na região

Primeira reação é sempre o pânico

nunca a tranquilidade de entender a resolução

que hoje chega mais rápido

por entre um período de loucura.

Como e onde começou?

a necessidade de pensar sempre no pior

de esperar pelo desastre

e pela punição máxima

Dias de loucura

pensando horrores

pesadelos constantes

nenhum resquício de calma.

Depois perceber: tudo tem uma solução

nem sempre simples

mas sempre tranquila

evolutiva e com um fechar.

Não é necessário passar por tudo isso

o pensamento constante da paranoia

o cerco fechando-se

uma sociedade que preconiza a vigilância

desperta desesperos

depois de uma pandemia a sensação de morte

sempre a espreita

sociedade reza pelo extermínio

as notícias que anestesiam

invólucros de revolta pela execução

trazem consigo uma comiseração

quanto a própria morte.

Essa forma em que a performance vazia

substitui o contato humano verdadeiro

capitaliza afetos

e anestesia compaixões

é uma forma de matar aos poucos a vida

o desejo

o querer.

Abril dois, meio do dia, São Paulo, 2026

estou incrivelmente calmo e completamente refeito de toda a paranoia

talvez seja isso que contou-me a terapeuta ontem, quando decidiu estender o

intervalos entre as consultas em quinze dias.

disse-me que estou bem centrado, que reconheço os padrões maníacos e consigo

lidar com eles, mesmo com certo grau de aflição, de forma coerente.

resolveu espaçar.

No mesmo dia:

ocorreu o que ocorreu

a morte sondou-me como sempre

o subconsciente.

seria tudo isso o desamparo?

os homens da empresa de reformas

recolheram os ladrilhinhos descascados do prédio.

assim como eu.

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um metro e sessenta

óculos modificados pela luz do sol

tênis cinza e calça semi branca

a blusa azul clara

andando em vírgulas

na direção contrária

há dois metros estancou

um longo suspiro

tal ar rarefeito de montanha

os cabelos brancos inabaláveis

seguiu como se ninguém avistasse

vinte minutos depois

em um lugar impossível

a mesma roupa

o mesmo suspiro

como perseguição

como maldição

outra parada

tal uma promessa reencarnada

de algum demônio caçador

hoje foi o dia de idosos em passos cambaleantes

hoje foi o dia dalgum tipo de assombração

como uma formação rochosa no queijo

como uma maldição

tal o horror do encontro

com uma senhora que caminha por impossíveis distâncias

em encontros de impossível acaso.

Abril três, manhã de exercícios, São Paulo, 2026

parou em frente ao espelho

acertou a posição do telefone

olhou-se

apertou o obturador

falso, porém obturador

o mundo então parou alguns milésimos

olhou-se

saiu de dentro do espelho

admirando-se ao lado da máquina

enquanto admirava seu reflexo do telefone

voltou-se ao espelho

viu-se fora dele

olhando a si mesmo admirando sua imagem no telefone

apertou publicar

a imagem do espelho

agora no espelho do celular refletia

a imagem saiu de dentro do espelho

apertou as mãos da que parou de novo em frente ao espelho

pois a luz do teto criou um brilho errôneo no reflexo

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noite:

minha desastrologia completamente sem rumo

feliz apenas por estar feliz

centrado enfim

há algo errado

ou a vida seja assim mesmo

como deveria ser

um dia depois do outro

mais silêncios

menos estrondos

mais passos dados aleatoriamente

um depois do outro

sem tentar cavar por entre um inferno qualquer

talvez isso faça bem

ir aos poucos

com um sorriso

sem gritos

sem rumores de uma paranoia

roçando a lateral do avesso

uma semana feliz

sem sorrisos

apenas os olhos olhando um canto iluminado

da vida.

Abril quatro, noite, São Paulo, 2026

eu consigo entender a violência ou a maldade

até entender profundamente o desamparo

não tenho porém,

o menor entendimento sobre egoísmo.

a recusa em tentar entender que as coisas

necessariamente não precisam ser tratadas

partindo do ponto de vista da imposição do ego

ou da vontade.

existem saídas mais inteligentes

talvez para isso seja necessário

mais fala

o que não se tem

estamos perdendo a fala

mesmo que mídias e hipertexto

tratem na como método de modificação

cognitiva e ideológica.

a fala hoje nunca foi tão necessária

inversamente proporcional

à sua violência contemporânea.

Abril cinco, o dia, São Paulo, 2026

um dos maiores objetivos desse ano deve ser esse mesmo

entender os gatilhos da paranoia

trabalhar com eles

revertê-los

em arma.

Abril seis, manhã, São Paulo, 2026

um homem rastejava-se no asfalto

a camisa rasgada até os ombros

calça pela metade

respiração de cansaço

na cintura um saco plástico branco

na anca direita uma ferida fresca

reluzia o sol das nove

enquanto sangrava há umas duas horas

ao estender minha mão

ele elevou a voz

não por falta de educação

muito menos por conta da minha camiseta

mas por uma questão de orgulho

uma questão de força

lutar intensamente contra

a imposição da miséria vida

pediu que ligasse ao um cinco meia

estendia mão

recusa

continua sozinho

arrastando a ferida no piche seco

como um torpedo sangrando

levei a colcha azeda à calçada

fiquei ao seu lado

até o meio fio lançar uma boia

ele salvou-se na calçada

semi nu

liguei

chamei

ao sair da minha dose diária de droga

pensando em como escrever sobre isso

ele não estava mais lá

a assistência social chegou

levou-o

sobrou apenas a caligrafia na folha de sulfite

que os atendentes receberam

pois pedi ao senhor que entregasse a eles

com o número do protocolo

(algo que ele já sabia)

o controle que tinha sobre ele mesmo

era espantoso

era tragimágico

um único homem

sem andar

controlava a epopeia de carros

numa rua de passagem

nunca vi tamanha força.

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meu dinheiro está acabando e hoje ainda é dia seis. preciso arrumar uma nova

fonte de renda visto não ter mais nem esperança de que ocorra uma mísera

possibilidade de que alguém além de mim mesmo faça alguma coisa. entendo que

existam circunstâncias horríveis dentro do nosso tempo e que dentro da nossa

sociedade as únicas pessoas que podem prosperar são enormes filhos de uma

puta. mas seria bom se ao menos o fardo fosse melhor dividido. enfim... eu espero

que aquele senhor de hoje esteja bem pelo menos não o vi quando sai. os

assistentes devem ter o ajudado antes das três horas de prazo. a meta para o dia

de amanhã é observar mais as pessoas ouvir menos música e mais a cidade. eu

preciso referenciar-me mais. a médica é dia 22 de abril. tomara que isso seja só

uma pinta horrível mesmo. tenho medo de morrer.

Abril sete, dia, São Paulo, 2026

tenho muito ódio dentro do meu coração é ele que vai me matar é muito rancor

por coisa que nem eu sei mais ao certo se importam. sinto muitas dores de cabeça

pulsações de artérias no cérebro dores pelo corpo. talvez eu realmente esteja

morrendo talvez seja por isso que as pessoas queiram me ver. para poder se

despedir. tenho medo de morrer ainda. ando pensando muito nisso mesmo que as

coisas caminhem para frente não sei ao certo como mudar isso. talvez seja preciso

mudar radicalmente minha forma de ver o mundo de responder ao mundo

principalmente ser menos reativo e mais responsivo mais positivo sem ser

inocente mais elucidativo sem ser pedante e ser menos ansioso e esperar mais

para poder responder se acalmar.

Abril catorze, dia, São Paulo, 2026

sonhei com você novamente.

a imagem cravada ao acordar era a seguinte:

— havia um conjunto de almoçadas, todas empilhadas em um canto da parede. nelas você fazia um sofá. no chão um pequeno colchão, pois você continua sem gostar de grandes móveis. nele, um ursinho branco de pelúcia enorme, seu companheiro nos momentos que não estamos em casa. encostado na face perpendicular da parede, o uso está de costas aos passantes. é ali, nesse canto reconfortante que dormia. a pose que você faz no porta retrato é a que sobrou-me ao acordar. escrevi um pequeno verso assim que terminei meus afazeres das seis da manhã. ele segue abaixo em primeiro rascunho:

é desse traço

a usar como aparato

o relevo desta pedra em tela

que se forma tua imagem.

gravada na sincronia do subconsciente

até um dia

tornar-se forma a romper

os limites entre os espaço e as cores

faz da morte apenas uma sombra

no momento do eu não eu

na parede da caverna

ao fundo dos meus olhos

a enunciação do amor

sujeito em tu.

Abril quinze, dia inteiro, São Paulo, 2026

há uma sensação de vazio que só pode ser preenchida no advento do traço.

Abril quinze, o dia inteiro em sua segunda metade, São Paulo, 2026

comerei rúculas e tomates

a voz que me vem suave

permanece com um grito

e uma navalha apontada ao peito

lentamente afundando por entre a pele

forçando o corpo a moldar-se

ao extremo

aos poucos

o aço tornar-se-á miocárdio.

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o ladrão?

o homem que reclama que não pode ser o ladrão?

ou o homem que apenas sente segurança em fantasiar ser o ladrão,

e ao final das contas ser só isso?

o produto de uma fantasia bem elaborada

uma fantasia que não se vive, pois é uma fantasia.

Imagens:

Eles não usam blacktie:

Sempre pensei naquela cicatriz como uma foto.

minha mãe nunca gostou quando eu exibia a marca

nos churrascos de família

enquanto bradava que meu pai

além de engravidar minha mãe, me deu essa cicatriz.

Minha mãe ficava brava.

arremessava chinelo, o que tivesse à mão

“corre que eu te mato menina”

obviamente nunca matou

era apenas engraçado.

Mas no fundo era isso mesmo.

no dia que meu pai abandonou minha mãe

pois pra ele manter a cabeça baixa

de joelhos

faria dele um vencedor

e não apenas mais um cidadão

aprendeu rapidamente a entender o capitalismo.

Baixar muito deixa sua cabeça muito perto do chão.

corpo em curva próximo demais da mira

o patrão tem mais carne para estalar o chicote

a polícia já tem o molde do pau de arara

essa mesma polícia foi a que chutou minha mãe

na barriga

e pegou minha testa de relance.

A cicatriz ficou.

achavam que a minha moleira não fechava

que ia acumular líquido

mas pai,

só acumulou rancor:

do patrão, do senhor, do capital.

Hoje no churrasco passei meu zine

vamos parar a escola por melhores condições de estudo

espero que veja na televisão, pai

estarei com o cartaz:

abandono de pai tem conserto

de escola, não.

Agon:

Quando se viu sozinho, a segurar àquela perna,

desejou que ninguém soubesse de sua existência.

Tropeçou no primeiro soluço imaginário,

enquanto rezava que nenhuma das supervisoras

pedissem-lhe mais do que pediram.

A manobra era simples,

aprendeu na universidade,

nas primeiras aulas de reabilitação esportiva.

Mão esquerda no calcâneo,

direita a apoiar o joelho,

enquanto evita: a hiper extensão do ligamento,

recém operado,

ao mesmo tempo em que,

com um simples movimento,

auxilia alongar o vasto lateral.

Importante músculo na manutenção da força,

que obrigatoriamente deverá ser contra balanceada

ao poderio de contração de seu menor gêmeo:

vasto medial oblíquo —principal motor da fêmuropatelar,

a estabilizar o complexo articular,

evitando que ao ganhar força o atleta lesione novamente o joelho —

assim reabilitando-o com alto índice de sucesso.

Era só lembrar-se de tudo isso enquanto as mãos escorriam.

Sons:

Como quase tudo, descobri ao acaso.

Disco novo, em ondas e desenvolvimento sem a menor pressa.


Tudo aqui me lembra gravidade zero, menos pelo espaço e mais pela meditação.


Se eu tivesse condições veria o show dela no Brasil. Tudo o que escreve é lindo por demais, como se Courtney pudesse entender como o mundo ao seu redor é vivido de formas distintas -mas com muita coisa em comum- em outros continentes.


Não existe uma única música que eu desgoste. Ouça em um quarto escuro, velas acesas.


Uma das minhas bandas prediletas. Esse disco pode ficar na sequência do anterior, no mesmo quarto escuro.


Disco novo da banda praticamente brasileira.