- dois anos?
- sim senhor, dois anos.
- sempre na mesma linha?
- 324 t1 centro - são pedro, 0517029.
- entrando dezesseis e saindo vinte e duas?
- sim senhor.
- todo dia?
- sim seu policial, todo dia. menos folgas.
- entendi... pode me chamar de Élcio. o senhor se lembra quando viu o cidadão em questão pela primeira vez?
- lógico... seria difícil esquecer.
- por que?
- olha seu polícia, é muito difícil esquecer alguém com tamanha bondade.
- ah é?
- sim.
- mas gente boa a gente encontra todo dia.
- não sei não, mas se o senhor fala eu acredito.
- o senhor está nervoso?
- nem um pouco seu policial.
- pareceu.
- não... só respondi a pergunta.
- entendi.
- tá bom;
- voltando, o senhor dizia que lembrava do cidadão em questão...
- Justino.
- como?
- o nome.
- de quem?
- do cidadão; o nome dele é Justino.
- ah tá, tudo bem... então, o senhor se lembra dele?
- sim senhor.
- e como ele era?
- normal.
- normal como Seu Izaquias?
- normal ué.
- mas normal como?
- como qualquer pessoa normal.
- Seu Izaquias olha só, eu só estou fazendo meu trabalho.
- eu sei.
- e eu preciso perguntar as coisas pois existe uma investigação...
- mas tem crime?
- como?
- se tem investigação tem crime.
- nesse caso a gente ainda não sabe.
- então o que eu tenho com isso?

- estamos conversando com todas as pessoas possíveis e pelas imagens da câmera do ônibus a gente viu que o senhor Justino conversou com você dias antes do desaparecimento.
- uma vez.
- não entendi.
- ele conversou comigo só daquela vez.
- e o que ele disse?
- nada.
- como assim nada?
- não disse nada.
- mas a imagem mostra o senhor falando.
- sim, eu falei; mas ele não disse nada.
- o que o senhor disse.
- tá calor demais.
- sim está; mas o que o senhor disse?
- disse que estava calor demais.
- ah, entendi.
- tá bom...
- mas como o senhor sabia que ele era uma pessoa boa?
- porque ele era.
- Seu Izaquias, deixa eu entender direito.
- sim senhor...
- a única conversa que você teve com o desaparecido foi essa?
- sim.
- e nessa conversa só você falou?
- sim.
- e mesmo assim o senhor sabia que Justino era uma pessoa boa.
- sim.
- isso não faz sentido.
- pro senhor.
- para Qualquer Pessoa Seu Izaquias, qualquer pessoa.
- olha seu polícia, o senhor me desculpe, mas para mim faz sim.
- o senhor gostaria de se explicar melhor.
- gostar, gostar, eu não gostaria não... mas enfim...
- por favor prossiga.
- eu sei que Justino era uma boa pessoa pelos olhos.
- pelos olhos?
- foi o que eu disse.
- como?

- eu trabalho há vinte anos como cobrador. antes disso fui açougueiro e padeiro. tudo o que eu fazia nesses trabalhos era observar pessoas. comprando pão, carne e depois entrando e saindo de ônibus. quando você observa tanta gente assim, entende como elas funcionam e como são.
- ah é?
- sim senhor.
- por exemplo; quando esse homem, Justino, entrava no ônibus nunca se sentava. passava toda a viagem di pé. a única vez que sentou num dos bancos, na hora que uma senhora entrou, ele levantou.
- mas ele levantou por conta da mulher?
- não, levantou por ser uma pessoa mais velha. ele teve o mesmo comportamento com um homem. ônibus vazio, subia alguém mais velho, nas duas vezes ele levantou.
- entendi. 

- depois disso eu passei a prestar atenção mais nele. sempre calmo, parecia dormir de vez em quando, mas na verdade ficava apenas olhando pela janela. quéto. algumas vezes olhava uma foto da filha.
- como você sabia que era filha?
- uma vez ele estava do lado da catraca e tocou o telefone, consegui olhar a tela e era a mesma menina da foto que ele vivia olhando. estava escrito filha no telefone.
- mas isso não quer dizer nada...
- se você desconfiar de todo mundo, não quer dizer mesmo.
- por favor prossiga, pois não consigo entender a relação ainda.
- do que?
- entre a sua falta de interação com o cidadão e a certeza da bondade.
- já expliquei.
- mas não foi específico.
- ... enfim... como disse antes, a gente sabe. não foi apenas por levantar dentro do ônibus, muito menos pelo silêncio. assaltante também é calmo e silencioso. mas era a forma como ele reagia ao que acontecia em volta. um sorriso leve depois do ônibus passar ao lado de uma enorme pedaço de floresta e algum passarinho acompanhar a janela. o vento nas folhas que fazia ele perder tempo olhando. sabe seu polícia, homem quando está dentro de ônibus, quase sempre tá olhando novinha e bunda. isso quando não se engraça e faz alguma merda. então Justino era diferente.
- como assim?

- a impressão que eu tinha é que ele via tudo como parte de uma coisa só. todas as pessoas eram parte da floresta, o ônibus era parte da floresta, eu, o motorista, as pessoas, tudo. então ele tratava tudo com muito respeito. nunca o vi olhar pra nenhuma moça que subiu no ônibus de forma maldosa. como se quisesse tirar a roupa dela à força. nunca. a vida interessava mais do que o corpo, entende?
- mais ou menos, continua.
- então, eram detalhes. uma vez enroscou na borda da janela uma borboleta ainda quando o ônibus estava parado no ponto. Justino subiu e automaticamente percebeu. e não é que foi lá soltar? eram detalhes. era como se a alma dele fosse uma ondulação dentro de um lago. mas isso passava sem ninguém perceber. eu via porque aprendi a admirar aquela calma toda e entender que estava diante de um homem bom.
- como assim ninguém via? o comportamento era público, não?
- mas seu polícia, gente como a gente passa desapercebido, mais ainda, passa desaparecido.
- oi?
- ... é... é isso mesmo... desaparecido. gente que tem a nossa cor, ou a cor do Justino, ou quem é do meu tipo ou do Justino desaparece a cada hora mais um pouco, até a gente no final do dia sumir de vez e só saber que a gente está vivo quando chega em casa e olha no espelho. tem dia, que de tanto o povo teimar em nos apagar é difícil ver nosso rosto. talvez seja isso o que aconteceu com Justino.
- o que?
- desapareceu de vez. de tanto apagarem ele por entre os dias, ele sumiu. ou talvez ele tenha voltado.
- voltado pra onde?
- olha só. pode ser que não seja nada, mas já que o senhor está curioso com tudo...
- conte por favor. 

- umas duas semanas antes de’u nunca mais ver Justino no ônibus aconteceram umas coisas esquisitas.
- quais?
- primeiro foi uma noite em que ele desceu no ônibus e ficou parado no acostamento olhando pra floresta. o ônibus depois daquele ponto fica mais uns três quarterão em linha reta. eu fiquei olhando pra ele. ele ficou até depois d’eu desaparecer no horizonte olhando pra dentro do mato. sabe como parece que a pessoa ouviu alguma coisa?
-sim... que mais seu izaquias?
- então, dias depois disso, ele entrou no ônibus e dormiu em pé.
- dormiu?
- sim. dormiu. nesse dia ele também estava suando muito. mas suava demais. toda hora pegava uma toalha. pegava a toalha e depois de um tempo estava lá, pescando de novo. depois de algum tempo ele percebeu que cochilou e também percebeu que eu estava olhando; aí que pra disfarçar eu disse...
- tá calor demais!
- exatamente. depois desse dia ele pegou a linha por mais uns dias e depois sumiu...
- e o senhor nunca mais o viu?
- olha... para não dizer que nunca mais...
- o senhor viu Justino de novo?
- eu não sei dizer se vi mesmo.
- como assim?

- olha seu polícia, foi como uma daquelas coisas que a gente parece que já viu antes mais está vendo no agora, sabe, como se um dia a gente tivesse sonhado com isso e depois de um tempo vivesse. eu estava virado pra janela e o ônibus estava passando na avenida onde o Justino descia, perto da placa escrito gelo. no mesmo ponto que ele ficou um tempão olhando pro mato, lembra?
- sim.
- então, tô olhando pelas árvores passando pela janela, quando eu vejo o Justino saindo correndo de dentro do mato. ele surgiu do nada. como se tivesse fugindo de d’algum bicho. estava de bermuda, camieta e tinha uma lanterna ou uma arma na mão, não sei dizer.
- uma arma?
- parecia, não tenho certeza.
- e ele estava fugindo.
- seu polícia, eu nem tenho certeza se não foi uma alucinação por causa desse calor maldito que está nesses tempos. o que eu acho que eu eu vi foi o Justino saindo correndo de dentro do mato assustado.
- depois disso.
- depois disso nunca mais.
- certo.
- vocês acham que ele foi sequestrado.
- não posso discutir detalhes seu izaquias.
- entendi.
- bom, acho que é isso. obrigado pelo depoimento, o senhor poderia assinar aqui

- vocês não vão achar ele não.
- como?
- é, vocês não vão achar ele não.
- mas o senhor acha isso por algum motivo específico.
- não é motivo, é por mim mesmo.
- seu izaquias não entendi.
- tinha uma coisa que eu tinha em comum com ele. a gente tinha no olhar um cansaço de vocês. eu reconheci aquele cansaço logo que vi Justino pela primeira vez. a gente está cansado de vocês, brancos. é muita confusão, muita morte, muita sujeira, muita perseguição. meus antepassados nas celas, em navios, os dele mortos por tanto tempo que a gente nem lembra mais. tá todo mundo cansado de vocês. ele deve ter ido embora para poder ficar em paz. largar esse lixo que vocês criaram, e viver.
- eu não sei do que você está falando Seu Izaquias.
- eu sei que não... eu sei que não...