A oferta vaidosa irrecusável. De início tal veranico. Um outono.

Editora alemã em expansão pela América do Sul.

Seu time de tradutores, alvorecer. Aos poucos, por enquanto.

Uma promessa. Tal o fenótipo desta cidade, que é feito de.

Caipira por viver desamparo, tem na espera uma virtude.

Salvei os endereços, o nome, o sorriso de abertura mínima.

Busquei pela editora. Encontrei-a cochilando em rosa.

Olhei seus livros, suas capas, seus autores. Existiam.

Todos catalogados na empresa de logística escravocrata.

Todos de mote romântico, ecos em famílias.

Tudo se encaixava na temática do trabalho proposto.

Tradução de um artigo científico;

escrito pelo renomado filósofo polonês - Que também existia.

Seu Orcid, impecável.

Oito mil, setecentos e sete palavras. O preço por palavra, ponderado.

Em libras.

Ora ora, ei-la; a bandeira vermelha.

Editora alemã com pagamento em Libras?

E o Euro? Encontra-se?

Estivesse atento, perceberia a localização do escritório;

no remetente abaixo: Londres.

Como me mostrou Tomas Müller, o diretor do departamento.

Sem mais dúvidas, existiam poréns.

Paranoia brejeira. Matutismo mambembe mumificado na derme.

Profissionalmente a resposta foi clara.

Faria. Limaria os prazos e,

estenderia os significados ao português bechariano.

Entraria tal irmã mais feia de Cinderela ao principado linguístico.

O verme apenas esperava.

Pelo sim, e não, o link com o artigo foi varrido.

Anti vírus, spyware, malaware.

tuppeware, aware,

wary, where?

Precavido, enviei uma mensagem diretamente à editora.

Meu nome é Jeca, sou caipira em pira. Preciso perguntar.

Detalhes enviados, endereços para conferência.

Stanislaw Andrzej Sorys esperava-me:

“O autor mostra que o formato familiar, o qual muitos pesquisadores referem-se como em colapso ou em crise permanenti... (não. permanente); é o resultado de um longo processo que envolve as obrigações mútuas e, ao mesmo tempo, o desejo de desenvolvimento individual de cada membro da família. Isso leva à rejeição de formas de existência existentes, laços e até perdas das crenças tradicionais, conhecimento (faltou um /s/) e resoluções normativas. Ao mesmo tempo que cria um novo tipo de laço social”.

Inicialmente desinteressou-me saber se A Terceira Via Polonesa,

ou os antigos acadêmicos do PSL seriam beneficiados.

Das vinte e duas páginas, a décima tomou-me um susto.

Era só tirar o /S/. Ou ainda trocar o /P/ e o /S/ por /M/ e /B/.

Pensei nas setecentas mil mortes por Covid. Chorei de ódio.

Pensei nos meus pais;

No cinzel cardíaco da Ivermectina em minha mãe.

Em meu pai aos berros no telefone.

Nas setecentas mil mortes.

Pensei na dívida no banco.

Pensei na dívida do Crefitto, que dura décadas.

Pensei no saldo de minha conta bancária: - Vinte reais.

Paranoia.

Continuei.

A espera da resposta alemã.

Dois dias. Terminei. Ao terceiro, começo a revisão.

Oito horas. Quarta-feira, o dia seguinte, havia um compromisso.

Inadiável. Literário. Demandava minha presença.

Atrasado já estava o projeto sul americano.

Pensava nas dívidas. Seria bom poder trocar o fogão.

Necessário terminar para livrar-me d’outro emissário à porta.

Noite.

São Paulo, 20 de janeiro de 2026, interior da sala.

aos cuidados de Tom Müller.

segue a tradução do artigo, com as seguintes mudanças sintáticas;

relevantes por motivos de adequação ao léxico português e, da

mesma forma, à construção gramatical da língua. aguardo a

conclusão de nosso contrato, do mesmo modo qualquer

necessidade de ajustes do texto. atenciosamente.

caro tradutor. terminamos a revisão do texto e estamos muito

felizes com os resultados. solicito que encaminhe um e-mail aos

cuidados de jasmie morton, responsável pelo setor de pagamentos,

e lhe entregue o código tpp8706sas. obrigado e esperamos

trabalhar em conjunto no futuro próximo. atenciosamente, tomas

müller.

aos cuidados de jasmie morton. boa noite, sou o tradutor do artigo

“as transformações nos laços familiares contemporâneos”, escrito

por stanislaw andrzej sorys. o código da tradução é tpp8706sas. o

endereço da plataforma de pagamento é meu e-mail. fico me

aguardo. atenciosamente.

estimado tradutor. obrigado pelo seu trabalho com nossa editora

alemã. ocorreu um problema no seu pagamento. não se preocupe

pois não tem relação com sua conta do serviço internacional,

contudo, há um problema em nosso servidor inglês e temos um

problema com a saída de dinheiro. peço por gentileza que você

entre em nossa segunda plataforma de pagamentos no endereço

abaixo e insira seus dados. o pagamento automaticamente será

feito com a conclusão do cadastro. atenciosamente, jasmie

morton; gerente do departamento de recursos humanos da editora

alemã.

Na roça o tempo é diferente. Nosso sotaque é uma caricatura.

O canto dos meus olhos vive mais tempo que um mamute.

Pois se movimenta tal qual migração intermitente.

Séculos em deambulação pelas savanas urbanas.

Lançar apenas a ponta da pálpebra a procurar roldanas da carroça.

O endereço eletrônico,

possuía uma estranha relação sintagmática. Fonemas órfãos;

Naturais da língua inglesa, mas sem lógica.

A órbita corria através deles. Mascava um mato.

No giro do cíngulo retroflexo uma informação neuronal ressoa,

próxima ao palato. Vibrante. Batimentos rodopios na posterior da

língua. Um grasseyé.

e se por acaso estiver a caminho de ceder a porta de casa ao gorpe?

Música ao fundo.

O mecanismo de busca revela vinte e duas possibilidades de endereços.

Rastreadores de golpes construídos através da internet.

Http, vaultle, on;

line, ponto.

Dez escolhidos. Onze respostas.

Uma delas acesa em minha cabeça.

Os sítios revelam que a localização do banco era na Tailândia;

que o local eletrônico tinha dois meses de vida;

o tráfego de dados era insuficiente para um banco;

o código que construiu-o tinha a função de minerar dados;

existiam doze denúncias;

seu nascedouro era Luxemburgo.

Recolhi as informações.

Criei um documento com tudo o que achei.

Uma notificação do Instagram chega. Era a editora alemã.

Nenhum dos endereços é verdadeiro. Tomas Müller não existe como

funcionário. Eles possuem uma plataforma de empregos própria, em que

recrutam inclusive tradutores. A pessoa que respondeu sugeriu meu

cadastro. Entreguei a documentação ao serviço de pagamentos, à editora

e ao sítio de empregos (citado por Müller como local em que achou meu

e-mail).

Desde então estou deprimido.

Consegui traduzir um artigo científico de oito mil palavras;

em dois dias e meio.

Pela janela ouço uma senhora reclamar:

Ela acha um absurdo uma conhecida ganhar três mil reais,

para ficar em casa.

Estou esverdeado por ver milhares de ilhas masculinas.