Contei pelo caminho nesta manhã, antes da dissolução do material pela chuva, catorze mamelonares de bosta nas calçadas. São Paulo é uma cidade prodígio arquitetônico desse tipo de formação em suas passarelas.

Todos os tipos, tamanhos, texturas e, como primordial característica, cheiros indomáveis. Todos estáticos tais monges. Impávidos como os pés de Ozimandias; a espera de alguma super oito nouvelle vague.

Essa não é a maior quantidade que encontrei em andanças. Um certo domingo, no cruzamento entre as ruas Helvétia e Barão de Campinas, próximo ao Elevado, pensei até estar em um plano daquela série “coisas estranhas” dentro do mundo invertido. Nesse caso, o esgoto invertido.

Tão impossível amnésia, que o cheiro nesse momento arranhou minha garganta com um pedaço de pedra para afiar cutelo.

Voltando para casa pensei sobre como existem pessoas que não conseguem se conectar com certos lugares e por isso fazem juízo de valor estético, sem ao menos saber o que é realmente estética.

Muitas pessoas também falam em liberdade. Não sabem do que estão falando do mesmo jeito que não sabem o que é estética.

Estas mesmas pessoas acham cosmopolita viver cercadas de bosta.

Hoje, no período da tarde, farei um bolo de chocolate com leite de castanhas.