O tato nasceu pelo ouvido. Da parede que há dias ressoava solavancos ácidos tal grito abafado. A voz era de madeira e não humana. Cabeceira da cama em talvez. Gotejava passos pela pele enquanto arrancava o estribo da cavidade e o crucificava. Calvário de um eco ungido em álcool. Inicialmente estranho, pelo advento de ser uma não voz aos primeiros sinais. Só ao entender a violência dos objetos arremessados como uma tentativa de libertação da jaula imposta desde a tenra idade maternal e uma resposta evolutiva àquele socorro silencioso emitido pela cabeceira da cama no quarto ao lado, teve a certeza que sua resignação seria tão impiedosa quanto os gritos.
Sua pele deveria sentir tudo calada.
Os pratos atingindo o pescoço, os vasos explodindo nas costas.
Era uma pele como rede de proteção aos destroços daquele desfazer de alma que ouvia por entre os dias. Sempre no mesmo ponto das madrugadas, sempre em força acelerando-se perto do final. Sempre um urro de colonização seguido de um soluçar. Talvez até por isso, estivesse ali aos prantos provendo remendos desavisados naquelas pernas. O tato nasceu pelo ouvido e tentou por alguns segundos amparar o impossível desamor.